quarta-feira, setembro 22, 2010

It's a Fire!

emil schildt
subi os degraus a dois e dois, na mão o ramo de flores. o coração batia a duzentos à hora, desordenado. hesitei antes de bater à porta dela. o encontro fora marcado duas horas antes. só o tempo de sair do emprego e comprar as flores.
quando abriu a porta, as mãos tremiam-me. estendi-lhe as flores, nervosamente.
puxou-me para dentro de casa fechando a porta com força. os seus braços envolveram-me como se há longo tempo esperassem por mim. abracei-a desesperadamente.
estávamos juntos pela primeira vez. antes tudo se tinha limitado a olhares, a provocações veladas, a mensagens de tesão. era a primeira vez e já ela me despia o casaco com fúria e eu lhe desabotoava a blusa com mãos nervosas. beijávamo-nos e tremíamos, despíamo-nos e procurávamos, tremíamos e beijávamo-nos. sem palavras, só as mãos e as bocas, as línguas, a pele. tocávamo-nos, procurávamos, sem palavras, só as pernas e os corpos, os beijos e as bocas, a saliva e os sexos, e tremíamos e procurávamos, encontrávamos e fugíamos. sem palavras. o desejo, os gemidos, o bater dos corações. o encontro. a rendição. unimo-nos, prendemo-nos, sem palavras. mordemos o coração um do outro. sem palavras, amámo-nos.


Oh, Those Fabulous F. Sisters! - Jan Saudek

Oh, Those Fabulous F. Sisters!, 1983

foto jan saudek & sara saudkova

quinta-feira, setembro 02, 2010



i am drunk on her surreal beauty,
as i surrender to her spell.
cradled in her soft weeping starlight,
I melt, as I become something unreal in her,
and like a dream, i am swept away.


foto peter badjzek

quarta-feira, agosto 25, 2010

claustrofobicus...


abre-me. abre-me...abre-me. abre-me. abre-me...abre-me. abre-me...abre-me. abre-me. abre-me abre-me abre-me. abreme. abreme me me. abre abre abre...abre-te. abre-te...abre abre te te te abre te abre. abre-me. abre. me abre-me. abre-me. abre abre abre...abre-me. abre-me abre abre me te me abre...abre
claustrofobia


foto narcis virgilius

terça-feira, agosto 24, 2010

emil schildt


...and as your fantasies are broken in two
did you really think this bloody road wouldpave the way for you?


jeff buckley

foto emil schildt

terça-feira, agosto 03, 2010

segunda-feira, julho 26, 2010

sábado, junho 26, 2010

o homem mais bonito de lisboa


há lugares proibidos onde não poderá entrar. regras. pontos. cicratizes. fundas cicratizes. recua e desiste. avança e volta a tentar. eu sou. eu sou. conseguiu numa noite de chuva ouvir a voz: longe, mais perto a tua voz, mesmo a tua voz. escutou. desenhou um coração atravessado por uma seta e nele escreveu o nome do enigma. entrou. fez-se silêncio. nunca alguém tinha visto ou ouvido nada igual. eram tantas as penas e tantas as dores que o homem mais bonito de Lisboa chorou. pediu perdão pelos outros. desenhou no infinito uma nova vida, traçou novas linhas, modificou o trajecto, redigiu novas moradas explicando aos outros o impossível: assim, aqui, uns com os outros, como agora.

foto hedi slimane

Amber Valletta, Shalom Harlow/Gemiddelde Voedingswaarde


Amber Valletta e Shalom Harlow, Fotógrafo Paolo Roversi

para Vogue UK (Maio 1996)

sábado, junho 19, 2010

james houston




OBRiGADO A TODOS E TODAS PELASIMPATIA E AMIZADE com que SeMpReMe disTinguiRam.

Este blogue começou a 19 de Junho de 2005,em Pleasuredome1


Foto James Houston

sexta-feira, março 26, 2010


muito perigosa
ano de fabrico: 2001
it's the nature of the beast, sir

well done, caps lock. well Done

A.I.M 4704789
Titular:Servier

tell me more Caps Lock
well sir, those are the facts, sir
read it, sir

casos de desidratação, hipotensão ortostática,
alcalose metabólica,  parestesias e cefaleias

um caso típico de prazo de validade expirado
era uma Servier a tentar escapar aos oito anos
de Prazo De VALIDADE
well done Caps Lock

expirado o prazo de validade
por Mert Alas,
Marcus Piggott - Mert & Marcus
Jeisa Chiminazzo by Mert & Marcus
registo 8275404

folheto informativo no interior


titular de autorização de introdução
no mercado
: Wyeth, Dark Side of the Moon


sexta-feira, março 05, 2010

Portraits

Sadnesss
Christian Coigny

SADNESS

Lord, make me an instrument of your peace; where there is hatred, let me sow love; where there is injury, pardon; where there is doubt, faith; where there is despair, hope; where there is darkness, light; and where there is sadness, joy.
St. Francis of Assisi
foto christian coigny



christian coigny
Baterás duas vezes e eu abrirei
e não quererei acreditar que sejas tu.
Entrarás num andar que desconheces
e que é feito apenas para sobreviver.
E aí me encontrarás, quem sabe
porque estranho desígnio. Entrando
na sala de jantar poderás ver o teu retrato
e os nossos livros. Soará o Nocturno.
Folhearás, quem sabe, Virginia Woolf.
Virei atrás de ti com o desejo
de sentir no meu rosto os teus cabelos.
Sentar-te-ei com infinita ternura
num dos velhos sofás compartilhados
(onde estudavas nos últimos tempos
um longo monólogo de mulher
solitária — o que nunca foste). Espiarei
os teus olhos, o triste sorriso
dos teus lábios amáveis, entreabertos,
e tudo acabará com um abraço
que será o primeiro. Deixará de haver
passado ou futuro. Tudo será lógico.
E este poema nunca terá existido.

feliu formosa

in quinze poetas catalães

foto christian coigny

segunda-feira, fevereiro 08, 2010


O que é que tu estás a fazer em mim?
Estou a escrever-me em ti.
Para mim?
Para os que sabem ler.
Amanhã vou para dentro de ti.
Não gosto que invadas assim o meu espaço.
Não sabia que o meu amor era um astronauta.
Não sejas parvo.
Vou para dentro de ti. Sabes onde fica?
Nem quero adivinhar.


Pedro Paixão

foto marriam

sexta-feira, fevereiro 05, 2010


Senão todos algum
de nós reproduz diversos os mesmos lugares.
E aquela que entra no verso para o
percorrer
atrás da tua sombra serei eu.

Fiama Hasse Pais Brandão

foto paul ward
,

segunda-feira, novembro 30, 2009

Mysteries of Love

Sometimes a wind blows
and you and I
float
in love
and kiss
forever
in a darkness
and the mysteries
of love
come clear
and dance
in light
in you
in me
and show
that we
are Love

Sometimes a wind blows
and the mysteries of Love
come clear.

sexta-feira, novembro 27, 2009

Jan Saudek & Sára Saudková


The Portrait of a famous man
Jan Saudek & Sára Saudková

era uma vez.
está diante de vós: ele.
quando escrevo tenho dois sexos.

tu ele.
era uma vez
está diante de vós: ela.

veste-se de amor eu
junta as folhas uma a uma
saberás

quem és tu
quem és eu
tu
ele
ela

poema feito sem rumo
reapareces
suspiro
atónito

foto encontrada na net

quinta-feira, novembro 26, 2009


I can feel the tug
of the halter at the nape
of her neck, the wind
on her naked front.

It blows her nipples
to amber beads,
it shakes the frail rigging
of her ribs.

I can see her drowned
body in the bog,
the weighing stone,
the floating rods and boughs.

Under which at first
she was a barked sapling
that is dug up
oak-bone, brain-firkin:

her shaved head
like a stubble of black corn,
her blindfold a soiled bandage,
her noose a ring

to store
the memories of love.
Little adulteress,
before they punished you

you were flaxen-haired,
undernourished, and your
tar-black face was beautiful.
My poor scapegoat,

I almost love you
but would have cast, I know,
the stones of silence.
I am the artful voyeur

of your brain's exposed
and darkening combs,
your muscles' webbing
and all your numbered bones:

I who have stood dumb
when your betraying sisters,
cauled in tar,
wept by the railings,

who would connive
in civilised outrage
yet understand the exact
and tribal, intimate revenge.

Seamus Heaney

Foto Francesca Woodman

quarta-feira, novembro 25, 2009


promessa atravessa a alma dorme e acorda
a mão estendida aguarda que o vazio seja destruído
a resposta tarda a chegar canto vazio
a minha alma solta-se num suspiro e o sol geme
visto-me para cantar o amor e assim reapareces
a mão estende-se e o teu nome solta-se


foto denis olivier

terça-feira, novembro 24, 2009

If I make the lashes dark and the eyes more bright and the lips more scarlet...


If I make the lashes dark
And the eyes more bright
And the lips more scarlet,
Or ask if all be right
From mirror after mirror,
No vanity's displayed:
I'm looking for the face I had
Before the world was made.

What if I look upon a man
As though on my beloved,
And my blood be cold the while
And my heart unmoved?
Why should he think me cruel
Or that he is betrayed?
I'd have him love the thing that was
Before the world was made.

Yeats

foto laurent benaim

quarta-feira, novembro 18, 2009

Portraits

Foto Philippe Pache
Add caption
There are those who choose to see
and those who don't

For we who with eyes
clouded as they are
can see the hearts
shatter in the chests...
can almost taste the blood...
can nearly take the hands of the drowning
yet the final reach is not for us to make...

the scent of the dead is the stone we carry

Hurl the prayers into a sea of mercy
whose hand holds back the vista of truth
which if we were to see
in all its wrath
would rip the pulse from our hearts

For there is a war
unseen by human eyes
and left for the angels to wage

the thunder of consuming waves
only an echo and smoke
of a fire hidden by Grace
but which in the end
will make the way
for the light that endures

when the dark mirror cracks

K. Rolly


foto joel-peter witkin

segunda-feira, novembro 16, 2009

Destruição



Os amantes se amam cruelmente

e com se amarem tanto não se vêem.

Um se beija no outro, refletido.

Dois amantes que são? Dois inimigos.


Amantes são meninos estragados

pelo mimo de amar: e não percebem

quanto se pulverizam no enlaçar-se,

e como o que era mundo volve a nada.


Nada, ninguém. Amor, puro fantasma

que os passeia de leve, assim a cobra

se imprime na lembrança de seu trilho.


E eles quedam mordidos para sempre.

Deixaram de existir, mas o existido

continua a doer eternamente.


Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, novembro 10, 2009


Faz-me falta
A tua pele na minha
Grito
Pela fome das tuas mãos
Pelo calor
Incandescente do teu desejo
Quero que me inundes
Me desfaças com um beijo
Preciso da vontade
Na rouquidão da tua voz
Diz-me
Que vamos voltar a ser nós.



foto wizfoto.ru

terça-feira, novembro 03, 2009


quando os nossos corpos se separaram
olhámo-nos quase a desejar ser felizes.
vesti-me devagar, mas o corpo a ser ridículo.
disse espero que encontres um homem que te ame
e ambos baixámos o olhar
por sabermos que esse homem não existe.
despedimo-nos. tu ficaste para sempre
deitada na cama e nua
eu saí para sempre na noite.
olhámo-nos pela última vez e despedimo-nos
sem sequer nos conhecermos.

(José Luís Peixoto, cantado por A Naifa)

foto google search

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