quinta-feira, setembro 12, 2013

Como é que se despe um corpo?

howard schatz
Não precipites a resposta, não lances já as mãos inquietas sobre a roupa. Demora-te. Começa pelo princípio. Pergunta primeiro: o que é despir um corpo?

Libertá-lo do que lhe pesa.
Do que o esconde.
Expô-lo.
Mas principalmente:
procurar entender.
Ler. Para além da superfície.

Começar com a nudez. De qualquer modo, é sempre assim que se começa. Com o mundo a exercer pressão sobre a pele. Lembrando que viemos apenas ocupar mais uma porção de vazio. Mas. Os vazios não passam de pontos de partida. Sonhar é decretá-lo. É afirmar que há algo que falta. Foi por aí que começou a NU.

A nudez não se escreve. Mas quisemos tentar. A ingenuidade faz parte do jogo: as melhores palavras são sempre as que parecem inúteis, as que insistem no impossível. Porque são escritas contra o bom senso, querem ir além do aconselhável. Sabem que dificilmente serão verdadeiramente novas e que jamais conseguirão entender o todo. Esta última frase, obviamente, deverá ser apagada da memória após a sua leitura. O que interessa é esta falsa inocência.

A NU é uma revista pretensiosa. Colocou a fasquia demasiado alta, teve a insolência de quem não podia perder. Quis ser mais do que seria de esperar de uma revista de estudantes, transbordar desde o início os limites da escola, da pouca idade, pensar sem dispensar o atrevimento. Quis aprender onde outros têm a pretensão de ensinar.

A NU quis fazer escola. O que não significa escrever a escola. Tal como construir o corpo não significa desenhar o umbigo. Fazer escola é construir pelo menos mais dez centímetros de mundo com estes instrumentos que nos colocaram nas mãos. Tal como construir o corpo é relacioná-lo com o que o envolve. A NU é um corpo. Qualquer corpo é uma construção lenta. As dores de crescimento foram várias.

Como em qualquer projecto amoral, há uma moral da história: não aceitar cegamente a moral dos outros, construir a própria. Em Coimbra, no meio de uma cidade e de uma universidade cansadas de tanto suportarem o peso da história e das tradições, a NU rasgou um caminho. Teve a sorte de surgir num lugar que ainda hoje se inventa, sem o lastro de uma marca registada, de doutrinas ou pensamentos mais ou menos únicos. Procurar a máxima pluralidade era a única via disponível. Nos temas, nas abordagens, nas colaborações. Nomes, rostos, palavras, ideias. Diferentes.

A NU foi construída sem piloto automático. Obrigou-se a pensar em cada metro percorrido. O caminho teve então de ser escolhido, arriscado. É difícil classificá-la porque a NU é propositadamente vaga no posicionamento. É demasiado irrequieta para ter um ponto de vista. A NU teve sempre uma tendência canibal, tentando devorar com critério mas sem cerimónias o que de mais marginal a arquitectura ia exibindo. Não procurando as unanimidades mas os fragmentos, a miríade de ideias e opiniões. Antes o confronto do que a anestesia. A NU quis apenas ser um olhar diferente.

É nesse caleidoscópio de vontades e insanidades que se vão descobrindo os espaços em branco, a preencher. O espírito NU é esse: cobrir de palavras o corpo, tatuá-lo com as verdades do momento. Começar na margem, no limite, para ir conhecendo a essência. Desviar do caminho óbvio em direcção ao que nos escapa na distracção dos dias, arriscando a miragem, o engano. A arquitectura nos lugares mais (in)suspeitos.

Porque
A arquitectura é: entediante. Quando se imobiliza deslumbrada com o seu reflexo. A arquitectura é demasiado lenta para que a pensemos devagar.
A arquitectura é: apaixonante. Quando se deixa infectar, subverter. A arquitectura vive dessa promiscuidade com o mundo. O resto é construção.

A NU procura a subjectividade porque em arquitectura só ela é objectivamente útil. Importa menos afirmar do que interrogar. Importa discutir, mais do que descrever. A diversidade é o único meio de tentar tocar em todas as feridas, de chamar a dor que chama a atenção que chama o pensamento.

Pensar a arquitectura é abandonar a pretensão de alcançar a verdade. O que importa é deixarmos as impressões digitais no papel, a sujidade dos dedos transferindo-se para a folha quase branca, admitindo que o que é real não pode ser puro. Não pode ser verdadeiro. A verdade não passa de uma bola de espelhos. O que a NU tenta fazer é escrever alguns dos seus reflexos. A responsabilidade acaba aí. Só fornecemos o sal. Cada um lança-o depois onde quiser. Na boca ou nas chagas.

Nudez.

Revelar aos olhos e às mãos o que se esconde por detrás do artifício. Por detrás das roupas, das palavras. Por detrás do enfeite, do ilusório.
Iludir um pouco mais, iludir diferente.
Quebrar barreiras, anular a distância de segurança.
Resistir a desviar o olhar, a cobrir a nudez onde ela nos fere.

visto no blog Epiderme, de Pedro Jordão
[publicado em "NU #18: Publicações", NUDA (2004)]

Arquivo do blogue