terça-feira, setembro 22, 2009

Vivo fazendo depender as minhas escolhas das
fantasias, sonhos e imaginação

mas não consigo nem me quero contrariar. quando crescer serei um senhora
.


photo Philippe Pache

domingo, setembro 20, 2009

oiço o som da harpa no ecran do televisor do meu quarto,
enquanto penso nas teclas estafadas daquele piano que

tocámos em conjunto. um dia. dia em que o meu silêncio se fez
através das palavras repetidas pelo outro. desenho incaracterístico
de pó de giz. palavras, palavras escritas. dizíamos céu, e o céu
eram as teclas estafadas daquele piano, quando sorrias para mim,
através de mim. éramos, nessa altura. tu e eu. um dia. oiço o som da
harpa no ecran do televisor, vejo-te a ti e a ele. ele dentro de ti,
nesse lugar que foi meu, que juraste ser meu, sempre. para sempre.
oiço-te ainda através das palavras repetidas pelo outro,
vezes sem conta: insistentes, dominadoras. a voz prepotente de posse
incondicional e dura. recordo-te na visão ele dentro de ti. no meu
lugar. a legitimidade de ser a decisão tua. e aqui ninguém. ninguém.


foto PhiliPPe PaCHe

quinta-feira, setembro 10, 2009

A uma Mulher - Paul Verlaine


A uma Mulher

Pra vós são estes versos, pla consoladora
Graça dos olhos onde chora e ri um sonho
Doce, pla vossa alma pura e sempre boa,
Versos do fundo desta aflição opressora.

Porque, ai! o pesadelo hediondo que me assombra
Não dá tréguas e, louco, furioso, ciumento,
Multiplica-se como um cortejo de lobos
E enforca-se com o meu destino que ensanguenta!

Ah! sofro horrivelmente, ao ponto de o gemido
Desse primeiro homem expulso do Paraíso
Não passar de uma écloga à vista do meu!

E os cuidados que vós podeis ter são apenas
Andorinhas voando à tarde pelo céu
— Querida — num belo dia de um Setembro ameno.

Paul Verlaine, in "Melancolia"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

foto david bellemere

terça-feira, setembro 08, 2009

Male Nude 1

foto dylan ricci


O desenho redondo do teu seio
Tornava-te mais cálida, mais nua
Quando eu pensava nele...Imaginei-o,
À beira-mar, de noite, havendo lua...

Talvez a espuma, vindo, conseguisse
Ornar-te o busto de uma renda leve
E a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
Em ti, a branca irmã que nunca teve...

Pelo que no teu colo há de suspenso,
Te supunham as ondas uma delas...
Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
Era um convite lúcido às estrelas....

Imaginei-te assim à beira-mar,
Só porque o nosso quarto era tão estreito...
- E, sonolento, deixo-me afogar
No desenho redondo do teu peito...

David Mourão-Ferreira

foto Kevin C Loreaux

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