quarta-feira, março 26, 2008


a gruta, o segredo onde outros andarão que não eu

que poderei eu dizer que não fosse ela?

de não saber quando serei a febre a consumi-la

entre o real e o sonho caminho em profunda religiosidade


foto frank bodenschatz

segunda-feira, março 24, 2008

sem fôlego


foto je suis marrié
escrevo no teu corpo
desejo lascívia
mãos e prazer
nada de virgulas
pontos finais
mudanças de parágrafo

não quero pausas
no meu corpo
carícias sem parar
sem respirar
de cima para baixo
de baixo para cima
limitando o crescendo

cravo no teu corpo
a página que me faltava
até ficar preenchido
coberto repleto
de riscos e letras - traços
e nada faltar
no teu corpo escrevo
a vida que me faltava


foto pleasuredome

sexta-feira, março 21, 2008

foto dariusz klimczak
Uma nota só, de desordem persistente,
a vibrar no abismo das coisas,
no mapa dos delitos;
acarinhando o pequeno remorso precioso
dos fins por atingir;
dobrando o tempo numa curvatura baixa
que cinge os tornozelos
da fugidia esfinge;
uma nota só, de correcção insidiosa,
na dádiva natural do tempo já vivido,
de dor aflitiva pela palidez das coisas
e o seu nome por dizer.

Falando sempre, sempre lamentando
o que ficou por decidir.

(António Mega Ferreira)

sexta-feira, março 07, 2008

Dias de Inquietação


O carro preto perseguia-me.
Tu, lá dentro.
Contigo, ela.
Tinhas os olhos cobertos pelos
óculos, escondiam o teu olhar de criminoso.
Falavas e sorrias.
Atravessei na tua frente, sem que me visses.
Parei e olhei-te.
Viste-me então.
Tiraste os óculos e sorriste.
Sorriste-me,
com aquele sorriso cínico que te conheço.


Os meus olhos disseram-te,
vês-me com alguém que não sejas tu?
Tu percebeste, voltaste a sorrir,
com aquele sorriso velhaco que te conheço.
Quem começou tudo, perguntei-te?
Os teus olhos desviaram-se dos meus.
Voltaste-te para ela,
beijaste-a na boca.
Canalha! Puseste os óculos,
passaste o sinal vermelho.
Como tudo o que fazes, sempre na transgressão.
Drogas, mentiras.


Vejo o teu sorriso, enquanto aceleras.
O sorriso morre-se-te, de repente.
Na tua frente estava eu.
Prefiro morrer a sentir isto...Vês-me?

foto stephen gesell

Arquivo do blogue